quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Instantâneo




Há quem diga cisne
há quem diga borboleta
e há ainda quem aponte
a exuberância
prestes à implosão
e ávida por existir- ainda-
que há quem diga cinza
e há quem diga alma

Talvez eu conte da metáfora
que veste bem, e fascine
a carapuça delicada
do sujeito à gente errada
se aferir  privilégio maior
do que o engano
e a metamorfose  

Talvez desponte o fio
do escuro que seda
e eu não corra
só me enrole e durma
significando despertar
sem corpo mole ...amanhã.

Inconsistente
o meu papel medíocre
pede grafite macio
e adia tudo

Já perdi a hora e o prumo
em mensagens cifradas
sem demandar resposta
a minha melhor proposta
veio da última visagem
“escrever para a posteridade”

Mas ainda estudo.


sábado, 12 de fevereiro de 2011

Miguel é uma mensagem



Será fim de trégua
maroto Querubim
aviltares outra vez
o teu Trono na poesia
suscetível ao incêndio
É implícita a cortesia
na aquiescência
às Dominações do silêncio

Uma mulher talvez despreze
talvez estraçalhe à unha
mas a minha alcunha
é uma Potência
que não se acomoda
em definições de Virtude
ou vício

Meu verso é um Principado
cuja soberania te concedo
Se não tens amor
deixa-o vago e branco
resguardado na saudade
que não se sabe

Aceita o arranjo que me cala
o que me custa
mas a vida não é justa
nem tem bula ou atenuante
Só poupa-me à ira
que macula este semblante
e apaga a lembrança
de ser teu Anjo

Iriene Borges

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Mantra

Não adianta chacoalhar pelo pescoço
Idéia, resiliência, urdidura

domingo, 26 de dezembro de 2010

A última gota

sumo de sonho precípite

transborda das corolas do dia



e sorvo



antes que desabrochem

chama e desamparo

em caules dolentes



Me espreitam corvo e morcego

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

À inconsistência dos atritos

Calo

e dói mais do que a carne viva




Iriene Borges

domingo, 25 de julho de 2010

Enquanto espero!

Um não sei que de procela

soprou-me na boca do nada

e despenquei até fincar raízes

numa nesga de madrugada



Viajo nos reflexos da sarjeta

Musgo e violeta no assento detrás

Um bilhete e Silêncio no alforje

Trinam apenas estampas florais





Hortência no guichê número dois

sacou meu destino da impressora

Paredes e divisórias acinzentam

o viés lilás eleito para a aurora







Desarvoram meus cabelos

palavras de céu e ventania

soprando versos descaminhos

enquanto espero calmarias



Sonho com a caixa em que te guardo



Encanto



Revolto em pedraria

sábado, 12 de junho de 2010

Conforme a música

O verso calco à beleza



Te possuo enquanto a fascinação ascende ânimo

pelos cantos da tua boca





Artífice de linhas imaginárias

curvo-me

à vibração efêmera

de ser teu entretenimento



Volátil como o que provoca

o belo é reinvenção cotidiana

que deponho, a teu gosto,

abstração da minha inteireza.





Iriene Borges

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Pichação

O que entra pela janela torna o vidro palatável

e retratos vivificam paredes e monitores



Pra não me entregar isso não pode fazer sentido


Silêncio a tiquetaquear e nada dorme realmente

se me aprisiona o fascínio refreável pela certeza



Para não me estragar não poderia ter sentido



E já é tarde para amar segundas-feiras em cores

que apascentam o futuro  quando estou presente



Para não me extraviar só posso ir no teu sentido



escrevendo Saudade em lugar visível

sem que alguém perceba ou deduza o nome





Iriene Borges

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Beatriz

A paixão

Só é bela adormecida

em páginas encadernadas

na estante ou na expressão

pictórica do inferno

doravante (sim meu bem,

teu codinome é Beatriz).



E desinventa almas delicadas:

umedece em febre e muco

até despregar um trapo

desapegado

do “final feliz”.



Alma só tem serventia

até a transformação

do sapo, que depois

magia é esconjuro

entre coxas,  sacralizado

em meneio de quadris.



Mas que Poeta

em rasgos de paixão

não escreve a ficção do amor

em cada cicatriz?


Iriene Borges

domingo, 30 de maio de 2010

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Umbra

Não me ocupes

Vago em luminescências

e rotaciono aluada



Para manter a linha

da mediatriz até o complexo

da cerviz até o sexo

fui sitiada

pelo remorso de existir



No entanto, irrompes a rir

e eu singular e asceta

projeto uma sombra completa

que me intercepta o senso

bem aqui na minha rua

quando alcanço a calçada

sob o primeiro poste

à esquerda



A persigo, e não me desgoste,

não por isso, que ela é tudo

tem o talhe do teu desejo

Pisa o asfalto como meu hálito

roça teus lábios sem beijar

Tem um contorno movediço

que me traga no molejo

e danço

entre o pudor e o vestido

feito pipa no ar.



Nos amamos em teu nome

em cada canto da vila

e inventamos a saudade

de conluio com cada esquina

só assim ela me arrasta pra casa

em êxtase

e some no clarão da porta

que amanhã tem volta

e reprise.



Não me ocupes

para a distância do sorriso

se vago em luminescências

rotaciono aluada



e só me sei sitiada





Iriene Borges

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Eros e Tânatos



Náufrago em mim mesmo, a procuro
Entre suas pernas o afogamento
Esvazio aos arremessos
que a vida não se desprega num só rasgo,
não se desentranha na descarga
de um único orgasmo
Há sempre um último deleite a ser tragado


E ela sabe
Me recebe
Me insere na argúcia estrutural da prosa,
na poesia cadenciada dos encaixes
Adere dos ímpetos até os ossos,
seus feixes tecidos de névoa e mucosa
E eu apenas falo, falo e falo
até desaparecer


É quando ela se constringe
fecha ao meu redor e secreta
o silencio absoluto.
Mas finge
Sei de cor o repertório dos ardis
que enleia o embuste feminino
quando goza menos do que quis


Dissimulada desabrocha devagar, 
desarvora aflitivos perfumes,
entreabre o corolário dos possíveis
e impregnado dos ungüentos do ciúme
sou assaltado novamente
por tudo que ansiava abdicar
Resvalo para fora


Ela não chora
Ao afago oferta o calo, nunca o âmago
Cumpre ocultar o desamparo, me visto,
guardo o estilete no bolso
Retrátil acendo um cigarro, degusto,
e ainda tenho o pulso de ostentar a marra
de quem só tirou um sarro


Sem palavra avanço
ela é como as outras
quer tudo, e não me alcanço.




Iriene Borges

domingo, 18 de abril de 2010



Foto: Alfredo Goya

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Quanto os Fantasmas confabulam



A cama sussurra que o conforto destoa

Quanto os fantasmas confabulam em duas horas de repouso?

Ouso os ossos no tapete
nas arestas de um frio
que recrudesce o outro
-o de fora mais tinge e menos magoa

Grudo a orelha gótica no porcelanato
Modulo o silêncio
no sintético obtido em fogo alto
E sedimento adormeço escuro basalto

Acordar?

É uma arte obtusa....
tilintar de cílios pétreos
trucidar de vista
depreciar águas-marinhas
em veios ametista


Iriene Borges

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Vou embora agora
enquanto partir é opção
Quando pressinto o fim
já digo adeus a toda hora
e não suporto essa consumição.

Melhor o cessar repentino
como se eu não soubesse a que vim
nem me importasse meu destino.

Iriene Borges

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Vinicius de Moraes by Jairo Alt

domingo, 21 de março de 2010

Soulilóquio

há quem destrua o que  ama por não suportar perder-se, sem saber que na perdição cabe o encontro em se tratando de amor.

*

há quem pense que a selvageria é crueldade, e o selvagem é livre, quando a liberdade é uma crueldade para com a besta domesticada.

*

o (d)esperto não vê mais longe do que aquele que orbita a esfera dos sonhos


se não sabe ler a letra gorda que escorre dos olhos em linha clara, como poderia ler nas entrelinhas?!

*

a farpa finca-se mais fácil quanto mais fina e delicada
e a arrogância é mais mordaz em trajes de mendigo

*

o ápice é mais alto em negrumes versados e pulsões violetas do que em teus opiáceos

*

eu sou a água

*

tua existência materializa-se em estacas no meu coração desnecessário

*

desmaterializo em versos soltos os impropérios que devastaram meu domínio

*


separadas, minhas falas soam lâminas cegas
unidas,  soam chôro no gume da palavra

*

é metálico e reflexivo o olho que vigia a cova rasa da tua pretensa profundidade

*

ora cego-te no reflexo da lâmina cega
ora cevo-te no fio da lâmina afiada

*

a paixão é um doce amargo que afina minhas normas

serei sempre carne exposta e alma nua
a paixão é um doce amargo que desatina minhas formas

*

vi suas fotografias, suas caligrafias espalhadas no sorriso.
você é bonita demais.
a beleza em si é um sofrimento.
a beleza em si é um abandono.

*




no semblante uma máscara cuspida com desgosto
há visco de escarro no sorriso posto

*

não impõe inércia a mágoa vergastada
nem o término é prerrogativa de teus precipícios.
ademais o fim é revogável na ficção que me criei

*

recito com orgulho que não sou boa
e de quando fui boa me arrependo
o travoso Remorso de existir!

*

seiva adocicada
vertida em recortes aveludados e perfume
aconchego nas dobras do veludo escuro
meu ego obtuso 

*

a esperança que fere
me mantém acordada

*

a febre desmente a resignação

*


é meu bálsamo rasgar o verbo e larga-lo ao vento

*

ternas amarras nos gestos convulsos
vaga ameaça veda o revide
ainda me perco dentro do espelho
unho a superfície vítrea na agonia de arrancar
a expressão da minha face
caio nos sulcos semeados no meu rosto 
o vazio ocupa tanto espaço

*

e a minha íris de mar aberto
outrora engoliu tuas mentiras
a tristeza de agora é sedimento 
fundo irisado que mente preciosidade
e consente a limpidez da superfície

*

crueldade
já conheço seus meandros
ainda o espelho me estilhaça
a perplexidade lacera mais em lascas
álgidas ferroadas entretem a consciência 

*

cuidado

substância inflamavél inerte
até a próxima faísca
antes das tesouras
eu arremessava os fios soltos
e  tecias o encanto

*
a lágrima suspensa enforca o raciocínio

*

a janela fechada é um sorvedouro de sonhos
o fundo azul é  abatedouro de minhas revoadas 

*

a coreografia escarlate
esconde garras aparadas
sob esmalte
defaçatez

*

meus olhos espectadores camaleônicos
que não podem evitar cores diversas
transeuntes da urbe ensimesmada
andarilhos de orbes veladas
dejetos  deitados à sarjeta
passageiros de dragões articulados

*

eu coleciono palavras
não essas que dizes
a cuja ressonância
segue o zunido da lâmina
e o frio na espinha 

*

antes a marca cruzada dos dentes
e edemas que o tempo não absorvesse
*

abandono é uma palavra
às vezes adeus
às vezes entrega

*

inteira imperfeição

irrelevância que persevera
impertinência que reitera o erro

*
tem farpas de seda a mentira





Iriene Borges da Silva

sexta-feira, 19 de março de 2010

ex curo
escuro
noite
note

no te
te amo
te amo noite adentro
chuva que cai
te amo que cai
chuva noite adentro

ardente
arde
dente

dente
doente
do ente

que ente?

entre?
saia
calça
bota

botar aonde?

onde eu curo
escuro
ex curo
curto


Liliane Jochelavicius

sexta-feira, 12 de março de 2010


Desenho vetorizado by Jairo Alt

des fere

Arco entesado
desfiro a seta
e esbato frouxo
entre o gesto
e a meta

Entre a mosca
e o baque
tombo presa
na agonia
do achaque

gume preciso
risca o espaço
no viés da pena

Ah, seja pássaro
e do traço
rufle o poema

Iriene Borges da Silva

quinta-feira, 4 de março de 2010

Musas, medéias, medusas

Sacerdotiza do estranhamento,
a admiração suscita o zelo de procurar
a sombra do teu titereteiro
embora àspera a urdidura dos indícios
e fios soltos desvelem tua vileza

Cavalgadura da vilania,
dor é louro com que a musa me coroa,
mordaças reabastecem meu tinteiro
e dos ardis em que me enleias
teço a estopa que mantém a idéia acesa

Anjo obtuso do aniquilamento,
a perspicácia é o avesso da tua malícia.
Ainda é dádiva do artista a visão perspícua
e saber tanto abençoa quanto perturba

Mensageira da minha alforria
provar da tua sordícia é ordem da musa
para que nada escape à pena oblíqua
e seu legado grafe-se em tinta rubra

Iriene Borges da Silva

segunda-feira, 1 de março de 2010

Tormenta

À janela aparo a goteira

*

Há um encanto pureril em reverenciar os pingos

como em observar o andamento das nuvens

decifrar as nuances do crepúsculo

ou o escape do gato para o terreno baldio

perto da infância

*

Conforta dor

que tempestades de verão eternizem a criança

num organismo que se deteriora

*

A água que se esbate e a água que escorre

formam os acordes de uma poesia

que se esboroa no silêncio.

*

Eu aquieço

*

E o arvoredo se desfibra em coreografia espectral

verdes limpos

vivificados pelo magenta da enxurrada

Enquanto a escrita se desintegra

*

em mancha.

*

Iriene Borges da Silva

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Veredicto



Tua presença não porporciona inspiração
Apenas doce agonia e noites de insônia
estupor de dúvida e certeza errônea
medo expansivo e alma febril em retração

Sequer despertas a verdadeira paixão
Só incitas a voracidade dos sentidos
suscitas desejos antes não consentidos
inventa uns impulsos que calco ao não

Nenhuma instância do meu conhecimento
te acompanha, te elege ou te reverencia
És hausto de desejo que ao passar inebria

E tua constância nas abas do pensamento
não configura oferenda ou alusão à poesia

És comburente nas labaredas da fantasia

Iriene Borgesda Silva

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Eviscerados atos

ecos do costume

sustêm-me na voragem



Iriene Borges da Silva

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Tantativa n° 11

Viceja a dor que não rasga o silêncio

Da linha puida do destino teço flores
e tranço cordas para enforcamentos postergados

Espero. O crepúsculo
tem sempre uma cor nova e inclassificável
em qualquer cartela - ontem um veludo azul escuro
velava o poente e a lua. Bom augúrio
para os amantes encontrados
e para as meninas que esperam-
a liberdade é mesmo azul e infinita
embora os limites de azulejo.

Para cada cristal de sal na face escondo uma pérola
no pote de açúcar ao fim do arco-íris

Iriene Borges da Silva

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

tentativa n° 9

Versifico

para ver

se fico




Iriene Borges da Silva
Foto: Iriene Borges da Silva

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Luz vulnerável


Eu procuro palavras cheias de esplendor.
Que pareçam simples, mas grandiosas
e retratem com medidas cuidadosas
minha ambição e a miséria interior.

E que transmitam meu amor imperfeito
à arte e à beleza inesgotável da vida.
Através delas minha sensibilidade vertida
em cada coração como se no meu peito.

E digam que vejo tão longe e profundo.
E sinto tanto e tudo tão perto, e voraz,
desejo tudo que vejo e tudo temo demais.
No intento de acertar eu me confundo.

Assim, ouso tentar adestrar o intelecto
para esculpir uma imagem trinunfante
sobre esta alma ingênua e petulante
Encobrindo a fragilidade que detecto

Enquanto insuflo verbos de energia
aturde-me o gosto dúbio da verdade
e dilui-se tênue visão da liberdade
em minha própria alma escorregadia

Iriene Borges

Foto: Iriene Borges

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009


Foto: Iriene Borges

domingo, 15 de novembro de 2009




(Eu) Gênia Ariana



A fumaça cinzela meu vulto no vento
suspensa
trespassa-me a paralisia do sofrimento

para o cativo
serei augúrio da degradação
para o algoz da gloria


Desde que o primeiro homem
burlou a inconsciência
um rubor de chama e sangue
mancha minha memória.

Subverte-se a hierarquia
da criação
No encalço da perfeição
a perfídia devasta a terra

O espírito é banido da matéria
e os gênios buscam exílio
na desolação sidérea


Expatriada como a judia
enjeitada como cigana
choro

eu

Ariana


http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=3891757&tid=5378437564559297721&kw=primeira+guerra+mundial&na=1&nst=1

O Triste caso do esboço que ficou melhor do que pintura:

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Gavetas

Flerte III

Há algum tempo
que percorro em passos tímidos
a tua superfície

******

Frestas

Chuva vermelha

Não curto pessoas

O oposto do homem
magra e negra
anel no dedo mindinho
reflete meu estado de espírito
relógio grande, redondo, preto e metálico
cortina de sangue

Turbulência, dança frenética da vida

Um abraço como chocolate

Gato preto
bonecas fantasmagóricas
calça xadrez

Bad Pain

Amor Solitário

De bruços, dormindo sobre o túmulo do sonho

Botina bonita
chocolate amargo

Sou minha própria referência

Lábios cor de vinho
lábios sabor vinho
piercing

Rude e ingênua observação

Boa Dor

Anel no polegar

Hábito= tédio
melhor de trás pra frente

Sobreposição
música
rítmo
pés bonitos
cortina lilás

Eu, Feliz de não ser você

Odeio como me sinto
sobre pessoas solitárias
armários amarelos

Pratico
*************

Caniço Pensante

Eu quero esse visual, sombrio mas elegante
sem discernir o nada
do pouco que tenho

Me agradaria dizer
algo que tivesse real significado

Divido espaço com criaturas estranhas

Quero dormir
pra não ruminar
na gritante incapacidade de agir
*********

Flash

Um quase nada de remorso
testemunha teu anseio
pela rosa quase nuvem
sem contar que a colheita
desintegra o sonho
como açúcar na água
(sem o doce)

Desfeita ilusão
na fluidez da consciência

**********

A bem da verdade
não conheço a fome
só a acidez que me digere
desde as entranhas
até as bordas do macrocosmo

(Sei do desejo com tanto nome
na tepidez da carne
que gere o prato
ou mais um orgasmo)

************
Reciclado meu papel
esvoaçam dobraduras de silêncio

O não dito tem aderência e nervura
da nudez constrangedora
************

Na contemplação
embainho
a mágoa mais incisiva

***********
Descensor

Esparramo
Mais epiderme
Retém-me o atrito

A borda pode estar no próximo passo.
************

prognóstico

Não leio o futuro
um verso

desabrocha no rochedo.

Som
entre meus lábios
e a suspeição de arremedo

Iriene Borges

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Tarja Preta

Tua voz tange minha retina
indeferidos brados
ribombam no céu da boca


Sismo
catarses violetas
entredentes dissipo o eco
em beijos acres


A cidade alucina
Entre o crepúsculo brocado
E a sombra seda fosca


Cismo
tinjo as tarjas pretas
verde, champanhe, prosecco
delírio tinto em cristal ocre


O raso é sem fundo
quando desfraldas tuas velas
entre o inefável e o hostil

pelo vidro vejo o mundo
que desbota e amarela
sob teu olhar incivil.

Rosa Cardoso e Iriene Borges
Foto: Iriene Borges

domingo, 13 de setembro de 2009

(...)

Abro aspas para o silêncio que nasceu de nós

Aninhou-se em minha boca
semente de sonho no ventre seco da inércia

A verdade é so minha
embora os espelhos exijam retratação
e os estilhaços me singrem
expondo meu espólio
de cicatrizes invisíveis

Na lista de meus crimes deve constar
que matei a saudade

afogada

numa poça de ódio.


Iriene Borges

terça-feira, 8 de setembro de 2009




Foto: Iriene Borges

domingo, 30 de agosto de 2009

Delírio da tarde

Há sol lá fora e não quero ir
A saia me estrangula pela cintura
e a bota revelará o passo lerdo
pelo tornozelo esquerdo
Há um engasgo me esperando

Girassol, Náusea, Asfixia

Tenho sono e fastio dos modos humanos
e nenhum interesse na arte do improviso
Há serpentes e odaliscas ondulando sob o sol
Nunca soube distinguir os guizos
No sofá sob a colcha azul
sou a concha que verte o mar
nas almofadas

Não quero ir
Um palmo de luz pela janela já embriaga
e estou certa de que esfolarei a retina
nas asas finas de alguma fada amarela.

Iriene Borges

sábado, 22 de agosto de 2009


Foto: Iriene Borges

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Confissão

Hoje matei um irmão
Meu corpo travou-se gélido
Meu rosto tornou-se pálido
E dilacerado meu coração

Foi num momento de lucidez
Ele dava-me as costas
E esperanças decompostas
O afogaram na morbidez

Então desocupei seu lugar
O limpou um pranto breve
E senti minha alma tão leve
Que não evitei gostar

Assim, porque eu o amava
E ele nunca me amaria
E pela sua enorme covardia
Ele há muito me matava

Iriene Borges

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

foto: Iriene Borges

domingo, 19 de julho de 2009

Desintegração

Desintegração é a ordem
Posto-me nua à janela
sem causar alvoroço

Inexistência
emparedada no cimento
sem a propulsão da dor

A ficção das asas
abandonada na cadeira
entre outros destroços

E o vazio estanque
prestes a vazar
em algum clamor

Penso, esquecida
incrustrada na moldura
de uma vida nula

Sem esboçar vigor
ou traço de candura
que sustente um verso

Iriene Borges

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Foto: Iriene Borges

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Olhar para dentro

Eu também grito.
Dentro há um poço
escuro, aonde vejo
a minha face
e a perco no infinito.

Eu também blasfemo
de modo grosso
o feitiço malfazejo
sob cujo passe gemo.

Eu também imploro
a piedade alheia.
Ou de deus, em Cristo.
Sem esperar piedade.
Há fé.Basta. Eu oro.

Eu também perco o decoro.
A vida fede, é suja e feia
e a palavra exprime isto
em sua total atrocidade.
Eu sei. E faço. É desaforo

Eu também prometo
voltar atrás. Desejo
suscitado pela vergonha
dessa pobre reação
de explosão e ímpeto.

Mas há o meu rosto
esfacelado, e não vejo
algo que o recomponha
em totalidade e perfeição
sem pôr nele meu oposto.

E o oposto é a vida
Que fede, é suja e feia

Iriene Borges

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Leitura no Realejo Culinária Acústica, com os amigos do Póeteias
http://poeteias.blogspot.com

Súplica ao meu assassino

Cala-me suavemente.
Cessa o estertor violento
de minha verve lírica
em vísceras alheias,
vertendo, de tua boca lacerada,
o sumo que alimenta
o meu sentir intensamente.

Deita-me languidamente,
entre versos brancos
e a tessitura vaporosa
de silêncios enternecidos.
Acomoda em meus contornos
tua alma sinuosa

Deixa-me repousar
às margens da vertigem.
E antes que se dissipe
o êxtase de minhas veias,
e eu pereça lentamente
no torpor da tua ausência
mata-me

delicadamente.

Iriene Borges

domingo, 10 de maio de 2009

Danizinha
Foto: Iriene Borges

Acode-me a náusea

Abrupta transmutação
e quase me desperdiço
bálsamo sobre tua chaga

Nenhuma redenção emerge
do ímpeto que me traga

Rememoro teus pecados
num rosário de espinhos

e perfumes

Mas a lucidez agride
cada sonho que elaboro

Acode-me a náusea

Transeunte permeável
aos pruridos da miséria
cuja humanidade desvanece
num lapso
de profunda mortificação

eu passo


Iriene Borges

terça-feira, 21 de abril de 2009

Fênix

"Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento"
Vinicius de Moraes

Escureceu
E ainda assim procuro
a sombra das alamedas

Entre o ocaso e o soluço
murmuram todos os poetas
mas só ouço
o reverberar destes versos
"pensar nele é morrer de desventura
não pensar é matar meu pensamento"

Tenho unhas negras
de entalhar sonhos no carvão
Reminiscência e custo
de saber renascer da cinza

E ainda assim te emprestaria
meus olhos de fixar vertigens
e partilharia o mistério
que tranforma
uma sequência de palavras
na conjuração das asas
para transpor abismos

Iriene Borges

segunda-feira, 20 de abril de 2009

voyeur
Foto by Iriene Borges

domingo, 22 de março de 2009

Luz Vúnerável

Eu procuro palavras cheias de esplendor.
Que pareçam simples, mas grandiosas
e retratem em medidas cuidadosas
minha ambição e a miséria interior.

E que transmitam meu amor imperfeito
à arte e à beleza inesgotável da vida.
Através delas minha sensibilidade vertida
em cada coração como se no meu peito.

E digam que vejo tão longe e profundo.
E sinto tanto e tudo tão perto, e voraz,
desejo tudo que vejo e tudo temo demais.
No intento de acertar eu me confundo.

Assim, ouso tentar adestrar o intelecto
para esculpir uma imagem triunfante
sobre esta alma ingênua e petulante
Encobrindo a fragilidade que detecto.

Enquanto insuflo verbos de energia
aturde-me o gosto dúbio da verdade
e dilui-se tênue visão da liberdade
em minha própria alma escorregadia

Iriene Borges

Henri Cartier Bresson

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Trilha

Na ponta da esferográfica
sangro azul
e singro realidades abissais

A amplitude é claustrofóbica
se não passa pelo funil
do saber empírico

Burilo lembretes em letras graúdas
Migalhas de agora
que não permitem voltar atrás

mas de longe estrelas miúdas
alumiando-me na noite afora
do meu labirinto onírico

Iriene Borges
Foto: Iriene Borges

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Práticas antigas

Eu dançarei sobre teu túmulo
Paganismo inerte
Música que aprendi de ouvido
no pulsar envenenado
que me perverte
mas sustenta o fôlego

Desfarei no giro dos quadris
A mandinga e a modorra
que lançaste-me sobre a libido
Terei teu jazigo revolvido
e até o verme cuidarei que morra
sob coreografias febris

Ocorre que as hordas infernais
são palavras esmurrando minha porta
e as logro no encanto das cantigas
E entre ritos novos e práticas antigas
vislumbro-te carne exposta
nas manchetes dos jornais

Breve dançarei sobre teu túmulo

Iriene Borges
Descanso de papel
Grafite
Iriene Borges

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Alquimia

Adorno-me com falsas pepitas
que brilham no breu

Ardil que ante os espelhos
desvia-me de ver

Ouro de tolo sou eu
Julian Schnabell

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Riso Pálido


Técnica: gastura

talho de estilete
sob verniz


Iriene Borges
Egon Schiele

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Entardecer

Sobre a pele teu olhar arde
Claridade quente e serena
de sol no princípio da tarde

Abordagem obscena
Exploração covarde
da minha pele morena

Pele sequiosa
que arde
e cora

de uma timidez pequena

Iriene Borges
Morning sun
Edward Hopper

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Caligrafia da entrega

O olhar
se entrega ao objeto
Nele se exaure e extasia
como se fosse fantasia
o querer precipitado

E súbito se nega
olhando novamente
indiferente
raso
conciso
e calculado

O desejo existe
febril e impetuoso
ávido por prazer
na brutalidade da carne

Mas em mim
se dilui e transfigura
na linguagem crua
na superfície táctil
da palavra nua

Iriene Borges

Egon Schiele

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Enquanto houver amor em mim

Nada posso senão amar
Enquanto for romântico e vulgar
entretanto real o estampido
da bala de festim
cabe cair e morrer
sem sangrar
E fechada a cortina
levantar e sair
sem ver a platéia em catarse
a rir
do desempenho ridículo e sem par

Iriene Borges
egon Schiele

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Pesadelos Urbanos

Ela pendia da cadeira alaranjada, como uma flor vistosa num caule fino. Ora o corpo pendia para um lado, ora para o outro, no embalo dos vendavais que fustigavam seu sono. Era a terceira noite que dormia sentada no banco da Rodoviária de Curitiba. Durante treze anos seu corpo habituara-se a pouco conforto. Na infância dormira em colchão de palha, e passara frio nas noites de inverno, incapaz de puxar a coberta que aquecia as irmãs. Dormir sentada só não era mais torturante porque ela estava entorpecida de novidades e luzes. Boa escolha a rodoviária. Aberta vinte e quatro horas, iluminada, todos só de passagem. Mas aquela era a terceira noite, e a flor, sonolenta, faminta e aturdida, desabava sobre a cadeira alaranjada. Quando uma voz grave sussurrou em seu ouvido “ Você não gostaria de dormir numa cama quentinha?” ela sequer respondeu. Movida por uma vontade anterior ao raciocínio ergueu-se e seguiu a voz. Era uma bela voz, e soava tão distante, como se viesse de outras esferas, outra dimensão. Aquela voz era macia, como lençóis brancos e tolha felpuda, e quando ela soava, ao fundo ouvia-se uma orquestra de águas mornas. E vozes assim bonitas e confortantes só podem ser de anjos. Há treze anos esperava por um que a salvasse. E ele viera na hora de seu maior desespero e a guiava por uma estrada de taxis alaranjados e depois por uma trilha de luzes, na qual seguia leve como se fosse incorpórea.
Mas a trilha revelava-se sinuosa e sombria. E à medida que a luz empalidecia o torpor diminuía. Começou a sentir o movimento cadenciado das pernas e o esforço das pálpebras na luta contra o sono. O frio de março manifestou-se num arrepio permanente. Assustou-se ao perceber que não ouvia mais a voz macia e branca, morna e corrente. Caminhava em silêncio, e ao seu lado outros passos, mais duros e pesados do que os seus . Não olhou. Um alarme silencioso ressoou em seus ossos. “Que um anjo a guiasse pelo caminho mais estreito era plausível, mas esse era o mais escuro”.Agarrou-se na maravilhosa sensação que aquela voz despertara, e arrastada por ela seguiu até o fim da trilha. E sim, estava escrito hotel. Ainda havia uma esperançazinha, uma ínfima possibilidade, quando uma voz estridente pediu ao recepcionista um quarto. Pagamento adiantado, sem registro no livro. E quando uma chave foi posta sobre o balcão ela catou e no mesmo fôlego voou escada acima. Sentiu-se nos labirintos sensoriais de seus pesadelos quando um homem atravancou a porta antes que pudesse fechá-la. Ficou atônita com a rapidez que ele a alcançara. Não se deixou agarrar. Antes, abriu passagem. Ele percebeu seu medo, a porta entreaberta, e disse “ posso dormir nos seus pés?”. E foi então que ela o viu. Sim poderia dormir aos seus pés, atravessado na cama, pois era bem pequeno. E perceber isso amainou o medo. Segurou a chave com força, olhou a cama bem arrumada, inspirou o cheiro morno de mofo no cômodo, o cheiro de limpo e guardado entremeado nos lençóis e cobertas e ouviu uma sinfonia de águas mornas correndo em seu corpo. Num gesto inesperado jogou a chave sobre a cama e disse “ pode ficar com a cama inteira”. Voou escada abaixo no mesmo tom.
Voltou para a rodoviária tateando no escuro da memória. Súbito estava na Cadeira alaranjada novamente. Triste, como uma flor queimada pela geada. Engolindo o pensamento que a recriminava por não ter tido coragem de olhar nos olhos do homem que lhe tirara a inocência. Nunca reconstituiria a trilha de luzes. E sempre gostaria mais da penumbra.

Iriene Borges

sábado, 3 de janeiro de 2009

Cai o pano

Eu devia engolir a fala
do modo que engulo o choro
e o retenho com um nó na garganta
e outras linhas emaranhadas.

Mas a palavra me desata me destorce
faca afiada me destrincha expondo trapos
desfia o alinhavo
da figura adquirida em banca de retalhos
mostra-me em cada laivo a artesania
dos adereços de rebotalhos

A isso que sou
...................boneca de sonho
........................................títere do som

não cabe reter a palavra que resvala

Iriene Borges

Dance at Bougival

Pierre Auguste Renoir

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

O baile

Se você não responde às linguas que falo
calo a saudade
Não saiba na voz doce o desencanto decantado
Não saiba a fantasia de princesa
No seu baile malogrado

Calo em mim o rumor de flores eclodindo
e deito a pétala mal- me- quer
no vestido amarrotado
já embolado nas gavetas da memória
aos panos rotos de outros bailes
em que os buquês murcharam no meu seio
e mãos pendidas ao longo do desencontro
não me enlaçaram

Esse sorriso branco bem bordado
é trama nos tecidos tenros da menina
que ficou às margens do salão
com música alucinando sob o decoro
os acordes esgarçando as rendas do regaço
e pés febris tesos num sapato nunca usado
e a quem coube ir embora
ao primeiro tom da aurora
sem ter dançado

Iriene Borges
Morning Sun
Edward Hopper

domingo, 28 de dezembro de 2008

O estalo

Açoites
e os manejas com a língua afoita
para sorver o gosto da vida que vaza
Mas não sangra a asa imaginária
Escalavra em seu ruflar a aurora das palavras
no breu que insistes erigir por minha casa

Iriene Borges

Julian schnabel

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Descolor(ações)

Verso pouco as cores do arco-iris
Parei logo nos sorrisos amarelos
Não saberia ser menina cor de rosa
Naturais me eram versos brancos
brancas ardências dardejadas
em centelhas luminosas

Mas súbito meu âmago adormecido
explodiu em tons de lava e cinza

E eu versejo
porque o que já não viceja em mim
germina de novo no bojo da palavra

O véu brumoso de fuligem que enegrece
meu discernimento vítreo espelhado
é só a junção de todas as cores da paleta

Na tinta suja dos negrumes versados
subsistem minhas cores puras
em nuances desveladas à boa luz

Iriene Borges
Naked portrait with reflexion
Lucian Freud

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Beijos de pedra e nicotina

eu amo muito mais o amor,
portanto já traí minha promessa
não tenha pressa de saber

eu amo muito mais o amor
e outro olhar há de vestir
de mistério a nudez violada
por teu falo e tua fala

outra boca há de neutralizar
o verso ácido em minha saliva,
e espanar as cinzas dos teus beijos
de pedra e nicotina

Iriene Borges

Lucian Freud

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Pesadelo

É o medo falando!
Há sombra e caos
O ritmo é taquicardia
Há também, e acima disso
uma dor calada
encalacrada feito o mal
dissimulado na inevitável
desfaçatez humana

É o medo. E ele diz
que não há tempo,
embora o tempo me devore
E também diz que o desejo
é uma chama que se apaga
enquanto tomo fôlego
É só o medo. Só uma âncora
a sussurrar que sou apenas
um barquinho ordinário

Mas eu sonho que sou a água

Iriene Borges

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008


Desenho
Iriene Borges

Sugestões

Eu estou tremendo
Um pouco de ira
Um pouco de medo
E muito de frio

Esse ódio ardendo
A náusea que revira
E em cada dedo
Uma garra que afio

Estou antevendo
A crepitar esta pira
Não mais em segredo
Não mais no bafio

E quando eu acabar
De parir esta dor
Hei de enforcá-la
No próprio cordão

E hei de despejar,
Sem qualquer pudor
Numa rasa vala
De qualquer chão

Não me surpreendo
Se geme e respira
Do fundo do poço
Um sonho vazio

Conquanto morrendo
Num fogo que inspira
Pergunto:
Quem foi a besta
Que acendeu o pavio?

Iriene Borges

domingo, 7 de dezembro de 2008

Desenho
Grafite
Iriene Borges

sábado, 6 de dezembro de 2008

Versos Desfiados

Perdoe-me se te desfaço
como quem puxa o fio
de tecido delicado.

Quando teci tua imagem
com a fibra do meu sonho
pensei tê-la eternizado.

Mas esse véu de insensatez
a encobrir meu discernimento
precisa ser desmanchado.

No esforço vão de sobreviver,
pesarosa, destruo a fina arte
do meu olhar apaixonado.

Iriene Borges

domingo, 23 de novembro de 2008

Judite e Holofernes
By Michelangelo Merisi da Caravaggio

A vingança Espera

O sujeito frio
que você espezinha
só é duro por fora.
Dentro é carne e incerteza
como você é agora

Com unhas e dentes
você não quebra a casca
nem dissolve a lasca
de desencantamento
a tapar sua visão.

Deixe que esvazie
esse corpo de cólera
a arrastar sua alma
para um ringue de lodo

Dissimule na sombra
o semblante de ódio
a retorcer-se todo.

Iriene Borges

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Woman in the sun
By Edward Hopper

Banho

Esse sol
não seca meus cabelos
nem incinera minha fúria

Esse sol
não abre portões
nem clareia mentes opacas

E a música
é um hiato
pelo qual não passamos.

Iriene Borges

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Reverso

Sei que vigias a janela descoberta
Tinta fresca na fachada todo dia
a registrar a caligrafia da passagem

Sou eu à espreita
Olhos acesos no desconhecido
anseios que trepidam a cada ruído

Sou eu
imagem distorcida em teu escudo
Ergo-me do fundo escuro
serpenteando em tua retina
a farejar teu medo

Iriene Borges

domingo, 2 de novembro de 2008

Linóleo
Iriene Borges

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Refletindo silêncio

Para longe de mim
Equilibrando-me
sobre o fio esticado
entre sonho e juízo
prestes a estatelar-me
na rudeza dos fatos
prestes a alçar vôo
rumo a pouso impreciso

Para longe de mim
A ressonância da tua voz
provoca tremores
muda o curso da libido
no murmúrio raso
do discurso fluido que escorre
para minhas profundezas

Para longe de mim
Que a figura
debruçada na janela irreal
seja a imagem colhida
pela menina em meus olhos
a ostentar indiferença

Estrela longínqua
refletindo silêncio
no mar

Iriene Borges

terça-feira, 28 de outubro de 2008



Gravura

Metal

Iriene Borges

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Eu devia saber

aquele gosto de vida na boca
era resíduo
de um sonho que tive

Iriene Borges
Foto: Iriene Borges

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Auto-Retrato Abstrato

Acontece que o nível decai
e cada dia se aceita menos
Os olhares doídos
e os hálitos pútridos
ameaçam entrar em mim
contaminando
qual entidade funesta
a conspurcar a vontade

Tenho ímpetos de morrer
se em meio à vida
e anseio viver
ao deparar com a morte

Meu destino é branco
para riscar a loucura
e refutar a sanidade
em fúrias negras

Temo o tédio, o ordinário
e a insensibilidade iminente
Prefiro que a vida doa
e quando dói não suporto

Na superfície sinto nada
ricocheteia o nada
arde o nada

Me corrói o nada

Iriene borges

sábado, 4 de outubro de 2008

Eu vi uma mulher morrer

Em seu rosto todas as idades
pereceram serenamente
De seus olhos lembranças
jorraram até secar
De sua boca suspiros vários
em seu último alento
Eu dormi em seu corpo
rígido e frio, até de manhã
Quando acordei me recobria
sua carne dura e seus ossos
me aprisionavam severamente,
estrangulavam-me a alma

Eu não me debati
Sequer tentei gritar
Mas tinha fome de viver
e comecei a mastigar

Iriene Borges

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Foto: Nicole Ledermann Cantéli

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Delírio

No pensamento a tua ausência é leve.
A tua ausência é lisa, tua ausência é rasa,
e desmancha-se no meu corpo em brasa
como inúmeros brancos flocos de neve.

Nos meus sentidos dados à minúcia
a tua ausência tem um peso de aura,
um porte de musa, uma doçura rara,
silêncio de prece, delirante fragrância.

E ela é tão suave, mesmo sendo constante
que às vezes em devaneio me surpreendo
dando atenção à idéia errante

de que existe um elo permanente.
E nem por força da vontade me desprendo
da sensação de que estás presente.

Iriene Borges

http://www.bardoescritor.net/ezine.html#Del%EDrio