terça-feira, 21 de abril de 2009

Fênix

"Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento"
Vinicius de Moraes

Escureceu
E ainda assim procuro
a sombra das alamedas

Entre o ocaso e o soluço
murmuram todos os poetas
mas só ouço
o reverberar destes versos
"pensar nele é morrer de desventura
não pensar é matar meu pensamento"

Tenho unhas negras
de entalhar sonhos no carvão
Reminiscência e custo
de saber renascer da cinza

E ainda assim te emprestaria
meus olhos de fixar vertigens
e partilharia o mistério
que tranforma
uma sequência de palavras
na conjuração das asas
para transpor abismos

Iriene Borges

segunda-feira, 20 de abril de 2009

voyeur
Foto by Iriene Borges

domingo, 22 de março de 2009

Luz Vúnerável

Eu procuro palavras cheias de esplendor.
Que pareçam simples, mas grandiosas
e retratem em medidas cuidadosas
minha ambição e a miséria interior.

E que transmitam meu amor imperfeito
à arte e à beleza inesgotável da vida.
Através delas minha sensibilidade vertida
em cada coração como se no meu peito.

E digam que vejo tão longe e profundo.
E sinto tanto e tudo tão perto, e voraz,
desejo tudo que vejo e tudo temo demais.
No intento de acertar eu me confundo.

Assim, ouso tentar adestrar o intelecto
para esculpir uma imagem triunfante
sobre esta alma ingênua e petulante
Encobrindo a fragilidade que detecto.

Enquanto insuflo verbos de energia
aturde-me o gosto dúbio da verdade
e dilui-se tênue visão da liberdade
em minha própria alma escorregadia

Iriene Borges

Henri Cartier Bresson

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Trilha

Na ponta da esferográfica
sangro azul
e singro realidades abissais

A amplitude é claustrofóbica
se não passa pelo funil
do saber empírico

Burilo lembretes em letras graúdas
Migalhas de agora
que não permitem voltar atrás

mas de longe estrelas miúdas
alumiando-me na noite afora
do meu labirinto onírico

Iriene Borges
Foto: Iriene Borges

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Práticas antigas

Eu dançarei sobre teu túmulo
Paganismo inerte
Música que aprendi de ouvido
no pulsar envenenado
que me perverte
mas sustenta o fôlego

Desfarei no giro dos quadris
A mandinga e a modorra
que lançaste-me sobre a libido
Terei teu jazigo revolvido
e até o verme cuidarei que morra
sob coreografias febris

Ocorre que as hordas infernais
são palavras esmurrando minha porta
e as logro no encanto das cantigas
E entre ritos novos e práticas antigas
vislumbro-te carne exposta
nas manchetes dos jornais

Breve dançarei sobre teu túmulo

Iriene Borges
Descanso de papel
Grafite
Iriene Borges

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Alquimia

Adorno-me com falsas pepitas
que brilham no breu

Ardil que ante os espelhos
desvia-me de ver

Ouro de tolo sou eu
Julian Schnabell

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Riso Pálido


Técnica: gastura

talho de estilete
sob verniz


Iriene Borges
Egon Schiele

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Entardecer

Sobre a pele teu olhar arde
Claridade quente e serena
de sol no princípio da tarde

Abordagem obscena
Exploração covarde
da minha pele morena

Pele sequiosa
que arde
e cora

de uma timidez pequena

Iriene Borges
Morning sun
Edward Hopper

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Caligrafia da entrega

O olhar
se entrega ao objeto
Nele se exaure e extasia
como se fosse fantasia
o querer precipitado

E súbito se nega
olhando novamente
indiferente
raso
conciso
e calculado

O desejo existe
febril e impetuoso
ávido por prazer
na brutalidade da carne

Mas em mim
se dilui e transfigura
na linguagem crua
na superfície táctil
da palavra nua

Iriene Borges

Egon Schiele

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Enquanto houver amor em mim

Nada posso senão amar
Enquanto for romântico e vulgar
entretanto real o estampido
da bala de festim
cabe cair e morrer
sem sangrar
E fechada a cortina
levantar e sair
sem ver a platéia em catarse
a rir
do desempenho ridículo e sem par

Iriene Borges
egon Schiele

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Pesadelos Urbanos

Ela pendia da cadeira alaranjada, como uma flor vistosa num caule fino. Ora o corpo pendia para um lado, ora para o outro, no embalo dos vendavais que fustigavam seu sono. Era a terceira noite que dormia sentada no banco da Rodoviária de Curitiba. Durante treze anos seu corpo habituara-se a pouco conforto. Na infância dormira em colchão de palha, e passara frio nas noites de inverno, incapaz de puxar a coberta que aquecia as irmãs. Dormir sentada só não era mais torturante porque ela estava entorpecida de novidades e luzes. Boa escolha a rodoviária. Aberta vinte e quatro horas, iluminada, todos só de passagem. Mas aquela era a terceira noite, e a flor, sonolenta, faminta e aturdida, desabava sobre a cadeira alaranjada. Quando uma voz grave sussurrou em seu ouvido “ Você não gostaria de dormir numa cama quentinha?” ela sequer respondeu. Movida por uma vontade anterior ao raciocínio ergueu-se e seguiu a voz. Era uma bela voz, e soava tão distante, como se viesse de outras esferas, outra dimensão. Aquela voz era macia, como lençóis brancos e tolha felpuda, e quando ela soava, ao fundo ouvia-se uma orquestra de águas mornas. E vozes assim bonitas e confortantes só podem ser de anjos. Há treze anos esperava por um que a salvasse. E ele viera na hora de seu maior desespero e a guiava por uma estrada de taxis alaranjados e depois por uma trilha de luzes, na qual seguia leve como se fosse incorpórea.
Mas a trilha revelava-se sinuosa e sombria. E à medida que a luz empalidecia o torpor diminuía. Começou a sentir o movimento cadenciado das pernas e o esforço das pálpebras na luta contra o sono. O frio de março manifestou-se num arrepio permanente. Assustou-se ao perceber que não ouvia mais a voz macia e branca, morna e corrente. Caminhava em silêncio, e ao seu lado outros passos, mais duros e pesados do que os seus . Não olhou. Um alarme silencioso ressoou em seus ossos. “Que um anjo a guiasse pelo caminho mais estreito era plausível, mas esse era o mais escuro”.Agarrou-se na maravilhosa sensação que aquela voz despertara, e arrastada por ela seguiu até o fim da trilha. E sim, estava escrito hotel. Ainda havia uma esperançazinha, uma ínfima possibilidade, quando uma voz estridente pediu ao recepcionista um quarto. Pagamento adiantado, sem registro no livro. E quando uma chave foi posta sobre o balcão ela catou e no mesmo fôlego voou escada acima. Sentiu-se nos labirintos sensoriais de seus pesadelos quando um homem atravancou a porta antes que pudesse fechá-la. Ficou atônita com a rapidez que ele a alcançara. Não se deixou agarrar. Antes, abriu passagem. Ele percebeu seu medo, a porta entreaberta, e disse “ posso dormir nos seus pés?”. E foi então que ela o viu. Sim poderia dormir aos seus pés, atravessado na cama, pois era bem pequeno. E perceber isso amainou o medo. Segurou a chave com força, olhou a cama bem arrumada, inspirou o cheiro morno de mofo no cômodo, o cheiro de limpo e guardado entremeado nos lençóis e cobertas e ouviu uma sinfonia de águas mornas correndo em seu corpo. Num gesto inesperado jogou a chave sobre a cama e disse “ pode ficar com a cama inteira”. Voou escada abaixo no mesmo tom.
Voltou para a rodoviária tateando no escuro da memória. Súbito estava na Cadeira alaranjada novamente. Triste, como uma flor queimada pela geada. Engolindo o pensamento que a recriminava por não ter tido coragem de olhar nos olhos do homem que lhe tirara a inocência. Nunca reconstituiria a trilha de luzes. E sempre gostaria mais da penumbra.

Iriene Borges

sábado, 3 de janeiro de 2009

Cai o pano

Eu devia engolir a fala
do modo que engulo o choro
e o retenho com um nó na garganta
e outras linhas emaranhadas.

Mas a palavra me desata me destorce
faca afiada me destrincha expondo trapos
desfia o alinhavo
da figura adquirida em banca de retalhos
mostra-me em cada laivo a artesania
dos adereços de rebotalhos

A isso que sou
...................boneca de sonho
........................................títere do som

não cabe reter a palavra que resvala

Iriene Borges