domingo, 19 de julho de 2009

Desintegração

Desintegração é a ordem
Posto-me nua à janela
sem causar alvoroço

Inexistência
emparedada no cimento
sem a propulsão da dor

A ficção das asas
abandonada na cadeira
entre outros destroços

E o vazio estanque
prestes a vazar
em algum clamor

Penso, esquecida
incrustrada na moldura
de uma vida nula

Sem esboçar vigor
ou traço de candura
que sustente um verso

Iriene Borges

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Foto: Iriene Borges

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Olhar para dentro

Eu também grito.
Dentro há um poço
escuro, aonde vejo
a minha face
e a perco no infinito.

Eu também blasfemo
de modo grosso
o feitiço malfazejo
sob cujo passe gemo.

Eu também imploro
a piedade alheia.
Ou de deus, em Cristo.
Sem esperar piedade.
Há fé.Basta. Eu oro.

Eu também perco o decoro.
A vida fede, é suja e feia
e a palavra exprime isto
em sua total atrocidade.
Eu sei. E faço. É desaforo

Eu também prometo
voltar atrás. Desejo
suscitado pela vergonha
dessa pobre reação
de explosão e ímpeto.

Mas há o meu rosto
esfacelado, e não vejo
algo que o recomponha
em totalidade e perfeição
sem pôr nele meu oposto.

E o oposto é a vida
Que fede, é suja e feia

Iriene Borges

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Leitura no Realejo Culinária Acústica, com os amigos do Póeteias
http://poeteias.blogspot.com

Súplica ao meu assassino

Cala-me suavemente.
Cessa o estertor violento
de minha verve lírica
em vísceras alheias,
vertendo, de tua boca lacerada,
o sumo que alimenta
o meu sentir intensamente.

Deita-me languidamente,
entre versos brancos
e a tessitura vaporosa
de silêncios enternecidos.
Acomoda em meus contornos
tua alma sinuosa

Deixa-me repousar
às margens da vertigem.
E antes que se dissipe
o êxtase de minhas veias,
e eu pereça lentamente
no torpor da tua ausência
mata-me

delicadamente.

Iriene Borges

domingo, 10 de maio de 2009

Danizinha
Foto: Iriene Borges

Acode-me a náusea

Abrupta transmutação
e quase me desperdiço
bálsamo sobre tua chaga

Nenhuma redenção emerge
do ímpeto que me traga

Rememoro teus pecados
num rosário de espinhos

e perfumes

Mas a lucidez agride
cada sonho que elaboro

Acode-me a náusea

Transeunte permeável
aos pruridos da miséria
cuja humanidade desvanece
num lapso
de profunda mortificação

eu passo


Iriene Borges

terça-feira, 21 de abril de 2009

Fênix

"Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento"
Vinicius de Moraes

Escureceu
E ainda assim procuro
a sombra das alamedas

Entre o ocaso e o soluço
murmuram todos os poetas
mas só ouço
o reverberar destes versos
"pensar nele é morrer de desventura
não pensar é matar meu pensamento"

Tenho unhas negras
de entalhar sonhos no carvão
Reminiscência e custo
de saber renascer da cinza

E ainda assim te emprestaria
meus olhos de fixar vertigens
e partilharia o mistério
que tranforma
uma sequência de palavras
na conjuração das asas
para transpor abismos

Iriene Borges

segunda-feira, 20 de abril de 2009

voyeur
Foto by Iriene Borges

domingo, 22 de março de 2009

Luz Vúnerável

Eu procuro palavras cheias de esplendor.
Que pareçam simples, mas grandiosas
e retratem em medidas cuidadosas
minha ambição e a miséria interior.

E que transmitam meu amor imperfeito
à arte e à beleza inesgotável da vida.
Através delas minha sensibilidade vertida
em cada coração como se no meu peito.

E digam que vejo tão longe e profundo.
E sinto tanto e tudo tão perto, e voraz,
desejo tudo que vejo e tudo temo demais.
No intento de acertar eu me confundo.

Assim, ouso tentar adestrar o intelecto
para esculpir uma imagem triunfante
sobre esta alma ingênua e petulante
Encobrindo a fragilidade que detecto.

Enquanto insuflo verbos de energia
aturde-me o gosto dúbio da verdade
e dilui-se tênue visão da liberdade
em minha própria alma escorregadia

Iriene Borges

Henri Cartier Bresson

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Trilha

Na ponta da esferográfica
sangro azul
e singro realidades abissais

A amplitude é claustrofóbica
se não passa pelo funil
do saber empírico

Burilo lembretes em letras graúdas
Migalhas de agora
que não permitem voltar atrás

mas de longe estrelas miúdas
alumiando-me na noite afora
do meu labirinto onírico

Iriene Borges
Foto: Iriene Borges

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Práticas antigas

Eu dançarei sobre teu túmulo
Paganismo inerte
Música que aprendi de ouvido
no pulsar envenenado
que me perverte
mas sustenta o fôlego

Desfarei no giro dos quadris
A mandinga e a modorra
que lançaste-me sobre a libido
Terei teu jazigo revolvido
e até o verme cuidarei que morra
sob coreografias febris

Ocorre que as hordas infernais
são palavras esmurrando minha porta
e as logro no encanto das cantigas
E entre ritos novos e práticas antigas
vislumbro-te carne exposta
nas manchetes dos jornais

Breve dançarei sobre teu túmulo

Iriene Borges
Descanso de papel
Grafite
Iriene Borges

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Alquimia

Adorno-me com falsas pepitas
que brilham no breu

Ardil que ante os espelhos
desvia-me de ver

Ouro de tolo sou eu
Julian Schnabell

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Riso Pálido


Técnica: gastura

talho de estilete
sob verniz


Iriene Borges
Egon Schiele

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Entardecer

Sobre a pele teu olhar arde
Claridade quente e serena
de sol no princípio da tarde

Abordagem obscena
Exploração covarde
da minha pele morena

Pele sequiosa
que arde
e cora

de uma timidez pequena

Iriene Borges